Intercâmbio EUA: Rumo à conquista da independência

O Alexandre viveu um ano nos EUA fazendo parte do 2º grau (Highschool). Ele também trabalhou na Disney World e em Washington D.C. Neste artigo ele aborda como é a vida lá para um adolescente brasileiro e como funcionam vários aspectos interessantes daquela sociedade.

Antes de relatar a minha experiência de intercâmbio, penso que algo deve ser esclarecido aos que decidem viver esta realidade. Ao contrário do que os adolescentes pensam, o intercâmbio não significa passaporte para a independência, nem moral, nem financeira. Isso é uma crença muito difundida, mas na minha opinião, irreal.

Nesta fase da vida, o adolescente precisa de muita orientação para aprender a se colocar diante das dificuldades que a vida apresenta. Muitos vão para o intercâmbio pensando que voltarão independentes. E isso não condiz com a verdade. Ser independente não significa aprender a lavar louça, arrumar seu quarto, cortar a grama ou falar inglês.

O intercambio dá ao estudante a oportunidade de enfrentar sozinho algumas das pequenas lutas da vida. Gosto de pensar nessa experiência como um primeiro degrau rumo à conquista da verdadeira independência tanto financeira como psicológica e moral. Na minha compreensão, ser independente significa aprender a pensar por si só, resolvendo os próprios problemas, e aprendendo a se colocar com acerto nos meios em que atua. Isso, logicamente, não se aprende em um ano, qualquer que seja o país em que viva.
Digo isso, pois, assim como ocorreu com muitos amigos meus, voltei para o Brasil, aos dezessete anos, acreditando ser independente dos conselhos e orientações de meus pais, postura que certamente foi causa de inúmeras dificuldades para mim no final da adolescência. Por isso penso no intercâmbio como apenas um degrau, e não como o fim.

Na minha experiência, optei por conhecer os Estados Unidos da América, escolha da qual não me arrependo, mesmo diante do movimento “antiamericano” cada vez mais presente no Brasil.

A escolha da cidade não dependeu muito da minha vontade. A agência de intercâmbios é a que oferece às famílias americanas nossas referências para que elas façam a escolha do intercambista que querem hospedar.

Fui escolhido por uma família que residia em uma cidade chamada Massillon, no estado de Ohio, uma pequena cidade muito acolhedora.

São inúmeras as vantagens de viver em uma cidade pequena, começando pela “popularidade” que um estudante brasileiro tem ao freqüentar uma escola americana, “fama” que abre brecha para muitas amizades no início da experiência.

Escolhida a família, o programa de intercâmbio se encarregou de providenciar meu visto de estudante com a duração de um ano.

Contratar uma agência especializada, de boa reputação, é o primeiro passo para fazer do seu intercâmbio uma experiência bem sucedida. Além de deixar o incômodo da “papelada” (visto, autorização de viagem, passagem aérea) nas mãos da empresa, as boas agências contam com representantes locais, responsáveis pela supervisão do intercambista durante sua estada no estrangeiro.

Devo admitir que a minha monitora só entrava em contato comigo para vender viagens e cursos. Mesmo assim, saber que você pode contar com alguém, 24 horas por dia, no caso de algum problema, é muito importante para quem está sozinho em outro país.
Optei por permanecer nos Estados Unidos um ano inteiro. Pude observar que o meu inglês se desenvolveu muito, até os seis meses de intercâmbio. Penso que qualquer experiência com duração menor que seis meses não permite ao intercambista o desenvolvimento completo do seu inglês.

A adaptação ao novo idioma e à uma nova cultura é, até certo ponto, complicada. No início, para me comunicar, pensava em português tudo o que eu queria falar, para só então traduzir para o inglês. Isso chega a ser um tanto cansativo e angustiante às vezes, pois, muitas vezes, ao tentar explicar algo, as palavras e frases simplesmente não saem. Algumas vezes eu chegava a dizer aos meus amigos e familiares: “no mês que vêm eu te explico”, frase que chegou a virar alvo de piadas lá em casa.
Mas nada que dois meses de prática não resolvam! Nesse período cheguei ao auge do chamado “choque cultural”. Estava mentalmente exausto, pois não agüentava mais pensar em português e traduzir tudo para o inglês. Neste período cheguei inclusive a evitar conversas muito extensas.

Passado o choque cultural, passei gradualmente a pensar em inglês, e foi quando pude fazer mais amigos e conhecer mais pessoas, devido à facilidade em me comunicar com os demais. Foi o período em que conheci meus melhores amigos.
A vida em casa é um pouco diferente da vida no Brasil. Na minha família americana não se tinha o hábito de almoçar. A falta de almoço era compensada com um bom café da manhã e jantar. Nos dias de aula, eu aproveitava o intervalo para comer um sanduíche qualquer, mas nada que se compare a um prato de arroz e feijão.

Ao contrário do que eu imaginava, os americanos que conheci tinham uma dieta controlada. Lá em casa comíamos macarrão, arroz, frango e muitos legumes e verduras. Tínhamos, inclusive, limite diário de coca-cola e bolachas, limite facilmente obedecido com o auxílio de uma sacola de chocolates e biscoitos escondidos no armário. 🙂

Minha família tinha boas condições de vida. Morava em uma casa grande, com muita grama para cortar. Tinha um pai e uma mãe muito atenciosos. Meu pai passava quase a maior parte do tempo viajando. Minha mãe cuidava da casa e dos filhos, um menino de 15 e uma menina de 13 anos.

O mais difícil no processo de adaptação foram os trabalhos domésticos. Fiz de tudo em casa, desde cortar grama e limpar banheiro, até trocar telhas e janelas velhas da casa. Meu pai americano sempre tinha um motivo para nos deixar em casa no final de semana. Fato que inclusive causou alguns atritos no final do ano, pois ele não entendia a minha necessidade de estar com meus amigos antes de voltar, e exigia que eu ficasse em casa trabalhando em mil reformas.

Tenho muito a falar dos grandes amigos que fiz nos Estados Unidos, mas relatar tudo o que vivi, fugiria do objetivo desse texto. Limito-me apenas a dizer que pude viver muitos momentos felizes com meus queridos amigos, com os quais ainda mantenho contato.

Na escola tive a oportunidade de jogar futebol e tênis. Os colégios americanos oferecem muitas possibilidades aos alunos. No meu eram mais de 60 matérias para escolher, sendo algumas obrigatórias. Hoje me arrependo de não ter aproveitado tantas possibilidades.

Um ponto interessante sobre as escolas americanas é que as chamadas “panelinhas” são quase que unanimidade. Os alunos se dividem claramente em “nerds”, “losers”, “atletas”, “góticos”, etc. O preconceito de um grupo para com o outro é grande. Vi muitas crianças serem humilhadas pelos “astros” de futebol ou beisebol, simplesmente por serem considerados “nerds”, ou diferentes. Eu procurei me infiltrar em todos os meios sociais, isso para mim foi muito importante.

Os americanos dão muita importância para o bom aluno ou atleta. O bom desempenho do estudante pode abrir grandes oportunidades futuras (mesmo para os estrangeiros), como bolsas de estudos para diversas universidades.

Para não me estender muito, posso dizer que o intercâmbio cultural é uma experiência extremamente proveitosa para o adolescente quando este se sente seguro e está com a vontade preparada para enfrentar os desafios que a viagem impõe. Quando preparados e apoiados pelos pais no Brasil, e por uma agência de intercâmbios competente, a experiência tem tudo para acabar com um final feliz.

Alexandre Dourado

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Por: ManoelEm: 21.09.2008 | Em Estudar  | Tags: EUA, Intercâmbio 
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